Não atendo telefone quando estou debaixo do chuveiro. Pode ser o papa, não atendo. Ok, o papa não é referência pra mim então que se foda ele. Mas papai é. Então digamos que papai pode ter morrido, também não saio do chuveiro pra atender. Ligo depois, fico sabendo da notícia ruim mais tarde. O lance é que sempre sei dos horários que minha mãe me liga. E não sei se ela tem sorte ou não (acho que não) ela sempre “me pega” fora de casa, no chuveiro, na balada ou ainda, na aula. De qualquer forma, vi que ela tinha me ligado e retornei a ligação depois, com a toalha enrolada no corpo. Ela queria saber como eu estava. Se comprei roupas novas, se passava frio, fome, etc.
Sei que meu jeito desinteressado com a maioria das coisas da vida a irritam; Pra ela, o que considero simples, prático e econômico é necessária e essencialmente medíocre. Pra ela, eu sempre deveria querer - e buscar - mais. Enfim… Hoje em dia não me considero exatamente uma pessoa ambiciosa mas… Ainda acho que a vida deve ser vivida de forma simples, apesar de tudo. Ambição, só para com as coisas que realmente importam (que são muito poucas, quase inexistentes, sutilíssimas), e olhe lá.
Ainda conversávamos sobre outras coisas até eu finalizar com um “eu estou bem” ao que ela prontamente respondeu “vou tentar acreditar”. Não sei se ela respondeu isso por causa da minha voz de cansada ou o quê, mas enfim… Não justifica. Não entendo essa dependência dela comigo e isso me frustra. Sei que não sou nenhum modelo pra falar com autoridade sobre “dependência afetiva”, mas de qualquer forma expliquei pra ela novamente, com toda a paciência do mundo, que até que existem contratempos por aqui, mas a vida de ninguém é um mar de rosas, que eu preciso desses contratempos pra virar gente, mas ela parece não ter dado muita bola pra isso não. “Pra mim é difícil” ela diz, o que me deixa de certa forma um tanto quanto irritada. Explico a irritação:
Ano passado, quando eu estava perdida de tudo e não fazia a mínima idéia do que seria a minha vida, ela vivia me dizendo, mexicanamente, que eu deveria “agarrar minha vida com as minhas próprias mãos” e ser “dona do meu destino” e toda a ladainha yadda-yadda de auto-ajuda que a gente vê, lê e ouve aos borbotões por aí. Depois que eu passei por esse processo e agora sim que começo, bem aos poucos, timidamente, me considerar “dona de mim”, ela me vem com esse papo de “tentar acreditar” que eu estou bem? Isso por que ando tendo resultados visíveis de que estou bem… Sinceramente… Não dá pra entender.
Acho que mães não foram feitas pra serem entendidas, mesmo.
Acho que ela tem medo que várias coisas ruins aconteçam comigo. Mas ainda acho que se ela tivesse idéia de metade das coisas ruins que já me aconteceram, não se preocuparia tanto assim e veria que agora é que eu estou vivendo a melhor época da minha vida. Ela também teme que a minha solidão extrema me torne numa pessoa extremamente amargurada, seca e insensível. Posso até estar equivocada, mas acho que isso não depende de solidão e também acho que é um pouco tarde demais pra ela se preocupar com isso de qualquer forma… =)











