Crônicas Atípicas

la douleur exquise

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[realidade | obra]

Sei que não preciso ter este constrangimento, mas me esforço pra ser mais comedida. Antigamente eu sei que era mais carinhosa, mas como já fui ridicularizada por você mais de uma vez por ser assim, tenho tentado me expôr menos. Desculpe, mas não esqueço de tudo o que você me disse. E também entendo que você pode voltar a me ridicularizar novamente a qualquer momento, como antes. Tenho muito medo que isso aconteça novamente. E como já sei que a probabilidade de tudo o que temo de fato acontecer é sempre proporcional ao tamanho do meu medo, não é difícil entender este meu tipo de precaução.

De qualquer modo, tem sido cada vez menos difícil entender que posso me expôr à você sem no entanto me sentir vulnerável. Posso apenas sentir o que sinto por você, sem esperar nada em troca. Ainda falho com isso mas, aos poucos, estou aprendendo a deixar de falhar. O que acho estranho é que toda vez que falo de como me sinto em relação a você, sempre acontece um desencontro, seja intencional ou não. Deveria estar acostumada com isso, pois hoje mais do que nunca, é proibitivo te cobrar qualquer coisa que seja. De qualquer modo, me sinto muito frustrada.

Acho ruim te falar sobre o que me frustra pois a primeira coisa que você faz é ficar na defensiva. “Nunca consigo deixar ninguém satisfeita, estão sempre a me pedir mais, estão sempre pedindo provas de que as amo, nunca nada parece ser o suficiente” e todas essas coisas que você sempre diz em sua própria defesa. No entanto já faz algum tempo que desisti de suprimir minhas frustrações só pra que você continue se sentindo bem o tempo todo. Foi difícil, tive de sangrar, tive de sofrer, mas depois de muito lidar, consegui administrar e simplesmente perceber o quanto isso é injusto comigo também.

Queria, algum dia, poder ver isso de fora e perceber se de fato sou eu quem sou insanamente carente demais ou é você quem faz – a todas e qualquer uma – promessas  que jamais se presta a cumprir. Ou se, enfim, somos os dois filhos da putas egoístas  autocentrados mesmo, cada um ao seu modo. Talvez esta última hipótese seja mesmo a mais acertada, jamais terei certeza disso. Não sei se terei fôlego e estômago o suficiente pra analisar isso a fundo. A náusea de todo o passado, presente e futuro já é o suficiente pra eu continuar lidando.

Me sinto frustrada pois acho que, toda vez que me abro – com muito custo – a sensação que tenho é de como se fosse pra nada. Não sinto que há um retorno. Não sinto que você valorize o que digo, o que escrevo, mas talvez este seja um problema só meu mesmo. Talvez eu precise apenas me adaptar – como tenho feito, como tenho tentado empreender – e saber responder a isso de modo menos desigual. É por essas e outras que tenho dificuldade em sequer começar a falar disso tudo… Sempre fica parecendo essa armadilha que eu te coloco, como você gosta tanto de colocar.

É a Caixa de Dora. De dentro de mim não pode sair nada de bom que também não cobre a sua parcela inversamente proporcional. E eu já sabia que, por algum motivo, não deveria tê-la aberto à você. Mas sempre tem aquela voz insistente, persistente, me dizendo pra acreditar, só mais uma vez, me dizendo para ceder, para dar só mais uma chance, desta vez obterei outra resposta, pois desta vez será diferente, só desta vez… Me sinto uma viciada em jogo. Sou uma farsa, um embuste. Digo que não faço mais apostas, mas aposto escondido de mim mesma. E isso é, de fato, ridículo mesmo.

Palavras-mantra

Palavra para 2012: outsmart.

Palavra de 2011: empowerment.

Maturidade

tive medo de olhar. achei que se demorasse um pouco, quem sabe a coisa ganhasse o aspecto que eu queria. enquanto não olhasse, ela poderia ser boa ou ruim. depois, ela seria definitivamente o que era. achei que, dependendo do meu humor, ela se converteria necessariamente em positiva, se é que já não o fosse. entrementes, pensei que isso de nada adiantaria. ela já era o que seria, mesmo antes de eu olhá-la. então decidi olhar, com decisão e maturidade. logo que a vi de relance, entretanto, já entendi que era ruim. olhei até o final e era pior ainda. estremeci um pouco. virei o rosto e quis esquecer. não pude e sei que vou lembrar por algum tempo, com um peso ainda maior do que aquele que a coisa tinha. agora, vou convertê-la em mais do que ela é. ela, que é só o que é, para mim sempre será menos ou mais.

 

(da Noemi)

O que é a velhice?

Uma das facetas da velhice é:

Achar que já sabe e conhece tudo o que é bom o suficiente pra você e dar-se por satisfeito com isso.

(dar-se por satisfeito a ponto de não aceitar mais NADA além disso)

Só isso já é meia morte.

E definitivamente isso já é estar velho.

 

 

[Seja bem vindo, junho.]

inteligentsia

“Foram os hormônios.

Uma prisão química.

(…)

Foi uma armadilha.

Sabia o que você queria e deixou você acreditar que seria capaz de lhe dar isso.

Mas tenha certeza de que não pode.

(…)

Foi um erro. Uma experiência que levou a uma nova lição.

(…)

Foi por causa da lua e da música. Pareceu perfeito.

Muitas luas se passaram e agora é possível se dar conta da ilusão que nos faz mitificar quem não merece.”

 

 

 

“Você me acha nojento?”

Sim, acho.

Muito.

(Só que não pelos motivos que você gostaria que eu te achasse nojento).

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i cant' poem

situ ando

Disse a ela que fiquei assustada com a minha resposta. “Para mim, pareceu muito natural”. Um distanciamento imperceptível quando vem subitamente à tona deixa tudo muito mais claro. “Você está aprendendo a perder… E a perder-se”, ela me disse. Sim, finalmente estou. Aliás, novamente estou. Já estive por aqui antes, isso tudo me é familiar. É aqui que eu vivo. Acreditei por muito tempo que não havia amor que se perdesse e hoje reconheço que: 1. Não há amor; 2. Que eu perco (e quero, desejo, perder). “E você, onde vai ficar?”.

Não me dei conta. Nenhuma. O susto, e o constrangimento. Posteriormente, nada me pareceu mais natural: vidas opostas, segregadas, separadas com intersecções intensas, porém, esporádicas e eventuais. “Sim, eventualmente”, disse a ele uma vez, que se revoltou, como de praxe. Hoje, é verdade. Nada mais que a verdade. Eventualmente, sempre. O que esperar a mais? Não esperar mais. Me alimento então do que jamais vivi e do que jamais viverei. A aceitação, se não for total é de parcial a completa. Estou quase lá.

Observo de perto o que não é meu e aí me acalmo e finalmente penso ter tomado uma decisão acertada. Só que nessa história não há decisão acertada ou errada. Na verdade não é nem mesmo esta a questão que se coloca. O que importa, de verdade, mais do que qualquer coisa, é que nessa história existe eu. O que há de meu aqui? E agora isso existe, esse eu existe. E ele é sozinho, solitário, melancólico (talvez ele seja assim mesmo, sempre foi). Quase imperceptível. Mas existe. E se mostra quando eu menos espero..

E ele existe pois se coloca entre as dores. Existe pois sabe se separar, se negar, mas existe também e principalmente porque sabe como se assumir, como tomar formas.

Por mais fodido que tenha sido, seja e esteja.

 

 

Lobotomia

Os homens têm descoberto um excesso de polarização em suas maneiras de perceber e compreender o mundo, que os leva a opor masculino e feminino, dever e prazer, controle e descontrole. Uma das consequencias desta polarização pode ser observada pela dificuldade dos homens de formar uma imagem sobre eles mesmos que leve em conta diferentes aspectos de suas identidades, e não particularmente aqueles esperados socialmente. Isto significa que buscam um modelo de comportamento para suas vidas que legitime tanto a autonomia quanto o desejo de ser protegido; tanto a insegurança quanto sua capacidade de prosseguir, ou seja, um modelo capaz de reconhecê-los tanto em suas especificidades quanto nos aspectos que os faz homens. O estereótipo do macho exclui estas diferentes dinâmicas subjetivas, fazendo crer ao indivíduo que um homem se faz sob sucessivos absolutos: nunca chora; tem que ser o melhor; competir sempre; ser forte; jamais se envolver afetivamente e nunca renunciar. É a este último modelo que os homens estão procurando renunciar. (p. 40)

Durante a socialização, os meninos serão afetivamente “lobotomizados”. As conexões que ligam o mundo aos corações masculinos serão inicialmente rompidas pela família e posteriormente pela escola. De tal modo que, na idade adulta, os homens estejam conectados com o mundo por meio de seus genitais e de uma lógica ilusória e pragmática. Falamos aqui da constituição de uma “sensibilidade peniana”. Diante disso, surgem algumas dificuldades, pois a dimensão sexual não dá conta de tantas outras necessidades afetivas. Abre-se aí um infindável número de buscas frustradas, encontros impossíveis e relações superficiais. (p. 42)

Diante disso, uma querela se instala para os homens. Com a negação da infância como etapa importante da vida dos meninos, e a ausência de um pai que os conduza afetivamente até a idade adulta, eles são conduzidos pelos próprios desejos que desconhecem, buscando, por meio do “crescimento” rápido, o atendimento de suas necessidades afetivas. Estas necessidades são potencializadas pelo silêncio a que ficaram submetidos desde a infância. Quando adultos, crêem que suas conquistas de patrimônio, prestígio e poder farão com que se sintam amados. Os meninos crescem acreditando que serão amados em razão do que conquistarem e não pelo que são. (p. 48)

NOLASCO, Sócrates. O Masculino: um dilema contemporâneo? In: O mito da masculinidade. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.

No. 1 Crush

Não é nada além de um contrato. E muita gente – mais do que eu esperava – orgulha-se disso. Alguns nem mesmo se orgulham, apenas o admitem como necessário. Como algo mais seguro, por assim dizer. Assina-se. Une-se, separando-se. Os amantes não sabem disso mas… O primeiro momento de união já é, em si, o primeiro momento de separação. Um está contido no outro e não há fim para isso. Isso existe nas entrelinhas, no convivio, nos detalhes, na falta de paciência, na dedicação desperdiçada, no desgaste da falta de comunicação ou pior ainda, da não-comunicação, do quase autismo diário. E contratos, claro, são criados e têm determinadas características e garantias. Se proteger é importante. Sempre foi e jamais deixará de ser. Contratos são promessas e promessas são dívidas. E essas, também, jamais deixarão de ser.

É preciso retornar sempre à questão inicial para verificar e ter algum tipo estranho de certeza. Uma reafirmação. Algum tipo de garantia, seja fictícia ou verdadeira. “Por que fiz isso mesmo?”. Porque eu era feliz. E achava que poderia continuar sendo. “Quem eu era quando me decidi por isso?”. Alguém que acreditava que, assim, finalmente, eu poderia ser feliz, continuamente…

É uma aposta um tanto quanto alta, não?

Aposta-se tudo, sempre. Aposta-se a sua felicidade nisso. All in.

Antes, me parecia tudo. Hoje, parece-me um pouco demais… De qualquer modo, sou uma desistente: parei de apostar. Abstenho-me deste tipo de jogatina barata, asquerosa. E de acreditar em promessas que jamais se farão cumprir a longo prazo. É um engodo. E um auto-engano, também. Acreditar é para os fracos.

I would die for you
I would kill for you
I will steal for you
I’d do time for you
I will wait for you
I’d make room for you
I’d sink ships for you,
Take the cross for you
Make me a part of you
Because I believe in you
I believe in you
I would die for you

 

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Sonhei que brigava com a minha mãe, que gritava e discutia com ela. Depois sonhei que caí na porrada com uma menina (que nunca vi na vida). Com quem (ou o quê) será que estou brigando?

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ARGUMENT Struggling with parts of self: paradoxes, conflicts, confusion. Mental self arguing with intuitive self. Holding on to old thought patterns which must be let go in order to move ahead, insure harmonious inner growth.  Resolution comes from centering withing, meditating, and drawing from a higher level of consciousness and understanding.

FIGHT  Suppressed second and third chakra energy being released in destructive manner. Learn to verbalize and not supress emotions.

(…)

MOTHER Usually represents older, wiser more experienced part of female self. Feelings you project on mother figure. If negative feelings, often reflects hatred or resentment of own motherly self which gives away power to others, lacks self-love, takes care of others needs and neglects own. See Female.

FEMALE Creative-intuitive, receptive, emotional, nurturing side of self; relatedness, feelings, the unconscious. That which is open, can be penetrated or entered. See Male, Yin-Yang.

BETHARDS, Betty. The Dream Book: symbols for self-understanding. Shaftesbury: Element Books, 1997. 184 p.

Tá olhando o quê?

Metrô, por volta de 18h30. Entra uma garota e sua namorada. A garota, cabelo preto, curto, de boné, muito atraente, vestida como um menino. A namorada, loura falsa, não muito bonita. Fico olhando a moça-menino, não sei se para tentar desvendar sua androginia (estava meio fascinada) ou apenas para admirá-la, pois ela era realmente muito bonita. Talvez um pouco dos dois. Eis que então ocorre a agressão inesperada: “Tá olhando o quê?”, me diz ela com um misto de medo e ódio nos olhos. Minha resposta foi semi-automática: “Nada. Apenas te achei muito bonita, só isso”. Não sei o que pensei, apenas respondi. Sei que a possibilidade de um homem me dizer ‘tá olhando o quê?’ nessa situação é bastante pequena mas, caso me dissesse, provavelmente ficaria muito constrangida. Mas nesse caso não pensei, apenas respondi e foi sincero. Ela ficou atônita, me olhando como se eu fosse um bicho estranho, sem saber se continuava com ódio ou se ficava sem graça. Talvez estivesse com os dois. Nem sequer considerei que a namorada dela pudesse ter algum tipo de reação e também não temi isso. Esse momento embaraçoso durou apenas só mais alguns segundos (eternos) antes de eu descer na próxima estação e continuar seguindo meu caminho.

Motorista

Acordar, botar para despertar em mais cinco minutos. Acordar de novo botar pra despertar em mais cinco minutos. Acordar novamente, botar para despertar em mais cinco minutos. Levantar. Fazer o que é preciso. Esquecer-se do que é preciso. Sair, vento gelado na cara. Esperar. Adiantar leitura de e-mails. Ler um livro. Subir, passar a catraca. Sentar. Continuar lendo o livro e ouvindo conversas que não se deseja ouvir. Faço questão de ouvi-las mesmo odiando. Faço questão de alimentar esse ódio. Uma vida em que se ouve só o que se quer (a música que se quer, o discurso que se quer, etc) é uma vida que não merece ser vivida. Simples assim. Quero ouvir o que é ruim, diariamente. Quero ouvir futilidades, banalidades e coisas desnecessárias. Odeio e quero. Faço parte, também, desse limite. Sou uma pessoa infundada.

As pessoas falam alto demais nessa cidade. Todo o som é alto demais nessa cidade. Não há espaço para o silêncio. Não há espaço para nada, na verdade. Presto atenção na leitura, mas o pensamento e a escuta periférica permanecem nas conversas. Um sinal vermelho, o ônibus pára. O motorista grita para a cobradora: “você quer ver a paz em um instante?”. Mal ela teve tempo de responder que sim e antes disso ele desligou o motor do ônibus. Semáforo e um silêncio absurdo. Fiquei abismada, em choque: o canto dos pássaros, as pessoas na rua, a luz do ambiente, tudo parecia muito diferente. Tudo se ressignificou a partir do silêncio. Imagino que se passaram 40 segundos. Talvez menos. Aquele momento pareceu uma eternidade, um pedaço de paraíso arcade matinal em meio a rotina, a loucura e a eterna  falta de tempo, o eterno atraso, a eterna pressa.

O sinal abriu. Ligou-se o motor novamente. Cessei o sorriso (alegria dura pouco, etc). Voltei pra minha leitura. E pro meu dia ruim.

 

 

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